Medidas de Descentralização da Oferta de Energia (Transmaterialização)

Com a Directiva da Comissão Europeia sobre Eficiência Energética e Serviços de Energia, as Concessionárias podem vir a transcender a sua função tradicional, limitada a fornecedoras de recursos, e tornarem-se prestadoras de serviços de energia.
Com a Directiva da Comissão Europeia sobre Eficiência Energética e Serviços de Energia – são criadas as condições para as Concessionárias de energia poderem vir a transcender a sua função tradicional, limitada a fornecedoras de recursos, e tornarem-se prestadoras de serviços de energia assim como de água. A grande vantagem, nesta mudança de posicionamento no mercado, é que as Concessionárias poderão passar a ter um verdadeiro benefício, inclusive financeiro, ao investirem, desta forma, na eficiência dos recursos que transformam e distribuem.

Os Serviços que podem ser prestados pelas Concessionárias são os seguintes: serviço água quente de consumo, serviço água potável, serviço conforto térmico, serviço água secundária (para rega, para a lavagem de espaços exteriores, para as cisternas das sanitas, para as máquinas de lavar), serviço máquina de lavar roupa, serviço máquina de lavar loiça, serviço iluminação artificial e serviço outros equipamentos eléctricos.

O novo paradigma energético da descentralização da produção e transformação de energia e da microgeração, que transforma todos os utilizadores em potenciais produtores (ou transformadores) de energia, é também um impulsionador para introduzir sistemas de gestão de recursos nos edifícios.

Para que o posicionamento das Concessionárias se possa adequar, de forma segura e sistemática, a estas novas realidades, será necessária uma monitorização contínua e pormenorizada de todos os consumos de recursos em edifícios. Hoje, tudo isto se tornou possível através do desenvolvimento tecnológico dos equipamentos de medição, de gestão e de controlo disponíveis para serem integrados em edifícios novos, durante a fase da construção, e, a posteriori, em edifícios existentes ou durante a sua reabilitação.

As energias renováveis no planeta são infinitas mas estão distribuídas de uma forma desigual – Portugal é um país extremamente rico em recursos renováveis e, se os souber utilizar melhor, usufruirá sempre mais dessa riqueza.

A energia solar, a energia eólica e a energia geotérmica, disponíveis em Portugal, um pouco por todo o lado, revelam-se uma riqueza que pode ser captada e transformada, também por todo o lado, desde que a rede de abastecimento de energia tenha a capacidade e disponibilidade para absorver o que o próprio utilizador-produtor não utilize na hora.

Para todos podermos participar na descentralização da oferta de energia, precisamos apenas de aproveitar o acesso que temos às energias renováveis e de instalar sistemas que captem e transformem essas energias para converter a energia solar, eólica, geotérmica e de biomassa em electricidade ou em energia térmica. A electricidade proveniente de energias renováveis deverá ser aproveitada, em primeiro lugar, no próprio edifício em que é transformada para usos que sejam mais compatíveis com as características e com a capacidade do sistema instalado. Quanto mais directa for a utilização da energia renovável, transformada em electricidade, maior será a eficiência e maiores serão também os benefícios associados ao correspondente investimento.

As tecnologias relevantes para transformar as energias renováveis em energia que se possa utilizar no meio edificado são recentes e carecem de cuidados específicos na sua instalação e operação para que funcionem de forma eficiente, pelo que é importante que se promova a instalação de sistemas de energias renováveis com outros parceiros, idóneos e competentes. É certo que o desenvolvimento tecnológico colocou no mercado, à disposição de todos, uma variedade de sistemas capazes de produzirem calor e electricidade a partir de fontes de energias renováveis. Enquanto, presentemente, os recursos ainda nos são fornecidos e medidos por unidade de consumo, muito em breve as Concessionárias irão prestar aqueles serviços de energia e de água de que verdadeiramente precisamos, e a qualidade do serviço prestado irá aferir o sucesso e relacionamento com o Utilizador Final. No rumo de melhorar o desempenho energético-ambiental das cidades, as Concessionárias tornam-se um parceiro estratégico, pelo que é importante que as mesmas se tornem também ‘parceiras promocionais’, vocacionadas para alcançar a optimização do desempenho dos edifícios (novos e a reabilitar), porque, deste modo, irão nascer novas áreas de negócio que, com o objectivo de melhorar o serviço prestado, poderão, simultaneamente, melhorar o desempenho energético-ambiental do meio edificado da cidade.

Sem qualquer alteração do “core business” das Concessionárias, a parceria com as mesmas passa pela instalação e operação de sistemas de energias renováveis e de equipamentos associados ao serviço por prestar aos utilizadores. Em edifícios existentes, sujeitos a intervenções de reabilitação, o papel das Concessionárias poderá significar investirem em medidas de eficiência energética, ao abrigo de contratos de prestação de serviços de energia. Entretanto, proporciona-se igualmente uma importante intervenção das Concessionárias no âmbito do licenciamento de projectos de edifícios ou de empreendimentos, permitindo-lhes antecipar e melhorar as condições de fornecimento de energia.

O desafio tecnológico encontra-se agora com capacidade de interacção entre a rede de abastecimento e a procura doméstica, além da gestão inteligente dos consumos, para conseguir incorporar na rede de abastecimento toda aquela energia proveniente de fontes renováveis, que não se torne necessária no momento e no próprio edifício em que é produzida.

Além de minimizados, os consumos – conforme refere o Professor Eduardo de Oliveira Fernandes: “tudo o que não é eficiência é poluição” e “o kilowatt mais barato é aquele de que nem precisamos” – devem ser geridos de forma a que os picos sejam minimizados (“smoothing”) e que a utilização da energia disponível na rede de abastecimento seja optimizada.

Salvo excepções, a máquina de lavar roupa ou loiça, pronta para iniciar um ciclo de lavagem, poderá arrancar quando a rede de abastecimento de energia tiver disponibilidade, em vez do momento em que nos vamos deitar, sempre que o ciclo fique terminado antes de nos levantarmos de manhã. O mesmo acontece com o frigorífico num ciclo temporal mais curto, sem que coloque em risco a salubridade dos alimentos nele armazenados, e que arranca quando a rede de abastecimento de energia tem disponibilidade.

Cuidados a ter na especificação de sistemas que transformam energias renováveis: Os sistemas solares urbanos, fotovoltaicos e eólicos, devem ser dimensionados de um modo adequado e correctamente executados. Neste sentido, os sistemas precisam de ser concebidos e instalados por entidades com “know-how” e com meios relevantes – tanto as entidades responsáveis pelos projectos, como as responsáveis pela execução.

Entre os sistemas passíveis de serem integrados no meio edificado, encontram-se os sistemas híbridos que integram para a climatização, por exemplo, o fotovoltaico com o eólico urbano, os sistemas geotérmicos e de energia de biomassa. Estes sistemas transformam a energia renovável endógena em energia que se revela útil no dia-a-dia.

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